A eleição do esquecimento do outro

O nacionalismo autoritário diz que vota pelo bem do país, mas esquece do povo que o compõe. Desculpas só em 2058?

// por Emerson Dias

Não sabemos ainda quem vai ganhar o 2º turno da campanha eleitoral no Brasil, mas tenho certeza que as ruas estarão agitadas nas semanas seguintes, independente do resultado. Teremos um vencedor sendo chacoalhado no galho, sem parar, antes mesmo de subir até o topo da árvore (deste pau-Brasil?), no dia 1º de janeiro de 2019, para colocar a faixa presidencial. A guerra declarada, de ambos os lados, remete sempre à perguntas posteriores ao “quem vai ganhar?”:

1- a questão inicial é quem vai respeitar o resultado do pleito?

2- depois, quem vai governar com um congresso que mais um vez tende a replicar os replicantes, conforme avaliação do DIAP

3- em seguida, temos a questão mais importante: quem garantirá as condições de equilíbrio social e democrático para as eleições de 2022, já que, estando um candidato autoritário na situação ou na oposição, as perspectivas são de contínuo desrespeito às regras da Constituição.

Não, não é exagero afirmar isso. Num passado recentíssimo, demos vida a uma criatura da qual víamos somente o semblante. Tentáculos e garras começaram a aparecer em 2017 e agora cristas, barbatanas e presas caninas se exibem descaradamente, sejam por meio de contínuas e ininterruptas declarações sobre possibilidade de intervenção militar (desastre que não funcionou no Rio de Janeiro os últimos 8 meses e só reforçou as características de não transparência das Forças Armadas); sejam por meio de conluios armados por 261 integrantes da bancada ruralista dando apoio estratégico a quem podem negociar; sejam por meio da insistência em desconstruir direitos trabalhistas imutáveis constitucionalmente, como o 13º salário criticado 2 (duas) vezes pelo general candidato a vice, em apenas uma semana.

Sejam ainda por delírios de varejistas e supermercadistas que simplesmente explicitaram os currais eleitorais e os votos de cabresto que sempre existiram (com a diferença que agora nós, os ruminantes, os burros e as mulas, somo reféns destes coronéis em regime de confinamento dentro de prédios estilosos); sejam em forma de ataques diretos às mulheres e minorias (como os quilombolas) que, absurdamente resultaram em denúncia de racismo rejeitada pelo STF.

Aliás, o amparo jurídico contínuo na manutenção deste maniqueísmo eleitoral segue desde o impeachment em agosto de 2015. Somente nesta semana, ao mesmo tempo em que um magistrado de terceira instância proíbe entrevista de Lula solicitada pela Folha de S. Paulo, um juiz de primeira instância libera “parte” de uma delação que já havia sido chamada de “fofoca” por um procurador do Ministério Público Federal.

O que temos antes desta eleição, no plano dos três poderes e que se escorre por certos segmentos da sociedade, é um nacionalismo autoritário que diz apoiar (e votar) pelo bem do país, mas que se esquece do povo que o compõe, da diversidade cultural ignorada por governantes que pensam somente no “cidadão padrão”: um urbanoide de grandes centros cheio, transbordante, de desconhecimento do Brasil continental.

Deixo, por fim, uma questão quase pessoal: quando a mídia brasileira pedirá desculpas à população pela “desinformação” provocada nos últimos 4 anos? Isso não é pergunta de petista (todos sabem que voto nulo há décadas), mas de um cidadão que, por circunstâncias do destino e prazer pela informação, também possui formação em Jornalismo.

Depois de tantos dados repassados em links acima, chego a uma análise de conjuntura que, repito, é pessoal: a de que a imprensa brasileira já percebeu o tamanho do monstro que ajudou a criar. Tenta, de várias formas, expor críticas pontuais – por meio de editoriais, colunas de opiniões e inserção de boxes com “o outro lado” – focadas apenas na cabeça do monstro: um candidato reconhecidamente antidemocrático, que usa o inciso IX do Artigo 5º da Constituição Federal para exercer sua “liberdade de expressar” intolerâncias.

O problema maior é que enfrenta críticas de organizações internacionais (cito a ONU, só pra ficar na principal instituição) e da própria imprensa estrangeira no ambiente externo (cito só o The Economist, pra ficar no mais liberal), enquanto simplesmente se contrai ao pensar na possibilidade de um partido político, no qual bateu insistentemente (muitas vezes com razão) durante 50 meses, voltar ao poder em 2019 repleto de mágoas e com possibilidades de retaliações por meio do corte de publicidade pública (o financiamento indireto eleitoral que poucos brasileiros percebem).

Por outro lado, inocentemente como ocorreu nos anos 1960, algumas “famílias” da imprensa brasileira voltam a acreditar que serem contrárias a um governo duro e autoritário será mais fácil porque basta se colocar na oposição pela oposição. A História (cíclica e entrópica, como sempre), já mostrou que é o pior dos caminhos de Alice no país das maravilhas.

Pelos meus toscos cálculos, como o pedido de desculpas pelo apoio errôneo ao governo militar no passado só foi assumido entre 2004 e 2008 (nas datas exatas de 40 anos do golpe e do AI-5), teríamos o reconhecimento dos erros midiáticos de agora somente em 2058?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *