Quando o nu desnuda o ser humano

Tem gente que não gosta de performances onde há artistas nus. Tem gente que não gosta das mulheres funkeiras rebolando nos rolezinhos com shorts justíssimos. Tem gente que não gosta de cowgirls coreografando shows do tal sertanejo universitário com vestimentas dotadas de um longo espaço entre botas e cintos. Tem gente que não gosta de mulatas sambando na marquês de Sapucaí, “fantasiadas” com pequenos adesivos coloridos, diante de diversas câmeras transmitindo o carnaval ao vivo, em TV aberta, para o Brasil e o mundo.

Por que, diante de tantos “não gosto!”, seguíamos tolerando quase tudo até 2016 e, de repente, este tudo passou a ser desconstruído, denunciado, perseguido e intimidado? Por que o brasileiro suportava diariamente a abertura das novelas Brega & Chique em 1987 Tieta em 1989, onde um homem e uma mulher apareciam nus no horário nobre da Globo, e depois tolerou a Globeleza, entre 1990 e 2016, “vestida” apenas com tinta colorida e efeitos especiais?

Porque TOLERÂNCIA, seja nos conselhos das avós, no sentido filosófico amplo ou nas premissas religiosas de qualquer crença, é a base para o entendimento mútuo. Papas, rabinos, pastores, babalorixás, sheiks, sadhus e até pensadores agnósticos historicamente defendem esta palavra como o caminho para compreender a própria sociedade e a diversidade que nela existe.

Especificamente em Londrina, cidade paradoxalmente conservadora mas que sempre se orgulhou das vanguardas que aqui surgiram – de Arrigo Barnabé a Ya Mukumby; de Dom Geraldo Majella Agnelo a Nitis Jacon – TOLERAR sempre foi a estratégia para construir ações contra “males” maiores. O movimento “Pés Vermelhos, Mãos Limpas“, premiado internacionalmente, talvez tenha sido a síntese disso no passado!

Mas o que vimos nos últimos 10 meses, culminando no fim de semana que passou, foi o contrário disso tudo. Exatamente no dia 14 de outubro, simbolicamente o dia em que Martin Luther King recebeu o Prêmio Nobel da Paz (em 1964) pelo combate ao racismo por meio da TOLERÂNCIA e da NÃO VIOLÊNCIA, um grupo de pessoas não tolerou um artista que se apresentava nu dentro de uma bolha plástica opaca (condição previamente passada ao público e transeuntes pela produção), às margens do Lago Igapó.

Mais que isso: não tolerou a cobertura midiática do evento, provocando o bloqueio de uma produção jornalística da AlmA Londrina Rádio Web. Uma mídia que, como outros veículos sérios, foi colher dados e depoimentos para informar as versões diversas do fato. A equipe não estava lá para publicizar a apresentação, mas sim para compreender e tentar noticiar o caso com o máximo possível de facetas lapidadas deste prisma polêmico.

Nota disponível na página da emissora no Facebook

Para quem lê este post e não sabe, eticamente informo que sou um colaborador da mídia independente em questão. Informo também que a decisão do grupo denunciante, que resultou no bloqueio da página no Facebook da emissora virtual, é tão preocupante quanto a denúncia da performance junto às polícias Civil e Militar: NÃO TOLERAR uma apresentação artística já é um sinal de alerta amarelo, mas NÃO TOLERAR uma cobertura jornalística é uma luz vermelha começando a aparecer no fim do túnel que se destina ao sombrio 2018. A reportagem, bloqueada no Facebook, está disponível abaixo para quem quiser avaliar o tal grau de incômodo que ela possa ter causado.

Insisto: questionar uma produção cultural, assim como uma decisão política ou um serviço público, é direito de todos. Para estes e muitos outros questionamentos, a cobertura das mídias (tradicionais e alternativas) é algo imprescindível em qualquer sociedade que se diz democrata. Tolere mais! Informe-se mais!

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