Cuidado com a polarização: o mundo é mais complicado do que isso

Como é duro se posicionar sobre alguma coisa nesta quarta-feira, no Brasil. Se eu disser que penso que Lula cometeu erros, que devem ser investigados, como os erros cometidos por qualquer cidadão, vão dizer: “ah, seu coxinha”.

Se eu disser que Lula deve satisfações, sim, mas que merece um julgamento justo e que Sérgio Moro não é um juiz em condições de julgar Lula com isenção, pois é um homem que se afoga no próprio ego, vão dizer: “ah, seu petralha, sua indignação é seletiva”.

Se eu disser que em alguns casos as decisões de Curitiba flertam com a ideia de tribunais de exceção e que tribunais de exceção não combinam com o Estado Democrático de Direito, o apedrejamento contra o emissor da opinião estará armado. Só falta atirar a primeira pedra.

Mas o mundo, meus caros, é muito mais complexo do que essa bipolaridade criada e incentivada por setores da sociedade, setores esses que se aproveitam de diversas formas da polarização. Inclusive politicamente, inclusive economicamente. O problema é que a polarização ofusca o raciocínio e impede análises que ajudem a compreender o que realmente está acontecendo.

Não existe só o preto e o branco. Entre o preto e o branco há uma infinidade de tonalidades, que existem e devem existir, sendo ou não contraditórias – até porque a contradição faz parte da vida e mesmo a contradição é mais complexa do que aparece nessa polarização à brasileira. Achar que a Lava Jato faz bem para o Brasil, por expor as vísceras do exercício do poder e da prática política no país, não é achar que Moro é sacrossanto e que os procuradores e delegados de Curitiba – alguns deles flertando com o fundamentalismo religioso, se considerando “enviados de Deus” –, sejam isentos imunes a paixões políticas, religiosas, filosóficas ou de outra natureza.

Achar que a Lava Jato “de Curitiba” é seletiva ou “daltônica”, mirando o PT e se esquecendo de outros – de vez em quando eles prendem um Eduardo Cunha para dizer que ninguém escapa, mas os tucanos, esses não são incomodados – não significa achar que os petistas sejam santos ou que tenham exercido o poder com extrema lisura, ou ainda que sejam vítimas de golpistas. O PT comandou o assalto aos cofres públicos por mais de uma década, mas não foi o PT que inventou esse assalto. Usou até alguns trombadinhas de governos anteriores para praticar o roubo. Mas esse assalto acontece desde a fase do Pau Brasil e todos os que exerceram o poder participaram dele.

Por fim, a melhor forma de combater a corrupção é defender que todos os que assaltaram os cofres públicos sejam investigados e punidos. Mas que sejam investigados dentro dos limites da lei. E que a justiça seja justiça e não justiçamento. E que os juízes, promotores e delegados se atenham a cumprir a lei e não se considerem a própria lei. E que os investigados deem as explicações que sejam devidas e que os comprovadamente culpados devolvam o que subtraíram.

Se não entendermos isso e se não entendermos que o Brasil e o mundo são complexos e não se restringem a apenas duas cores, vamos mais uma vez criar cada um a sua narrativa e fingir que está tudo bem. E seguir em frente para novos desastres.

 

PS: enquanto o Fla-Flu é jogado nesta quarta-feira, em Curitiba, o verdadeiro golpe continua acontecendo em Brasília. E o verdadeiro golpe são as reformas que massacram e fragilizam o trabalho e fortalecem incomensuravelmente o capital, sem que essa agenda tenha respaldo nas urnas ou minimamente na opinião pública. É uma agenda que só tem respaldo na CNI, na Fiesp e na maior parte de imprensa, mas não na sociedade. O cardápio político/futebolístico da quarta-feira é esse: Fla-Flu em Curitiba e os golpes de Michel Temer em Brasília.

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