O dia seguinte da Lista de Janot

A chamada “lista do Janot”, tornada pública ontem, foi comemorada (seletivamente) por todos os lados. Ou contou com reações do tipo: “ah, olha lá o Beto Richa junto com o Zé Dirceu”, postou um amigo no facebook. Tem para todos os gostos: Lula lá (na lista), FHC, Alckmin recebendo propina via família (ou famiglia?), Lindberg, do PT, ex-líder dos “caras pintadas” que derrubaram Collor, Aécio do PSDB (esse não é novidade, era “o primeiro a ser comido”, segundo Jucá, que por sinal também está na lista). Serra, Marta Suplicy, Humberto Costa. Tem político que foi com camisa da CBF a passeatas contra a corrupção. Enfim, a lista é enorme e está todo mundo lá: PT, PSDB, DEM (que era mais divertido e sonoro quando se chamava PFL), PMDB, um terço dos ministros do governo Temer, um terço do Senado, uma penca de deputados, uma baciada de governadores.

E a sensação é de quem não está lá não é porque não fez, é porque não foi pego.

Passadas as comemorações do Fla Flu, o sentimento pós-lista do Janot é (ou deveria ser) de ressaca. Porque olhando a lista, lá está toda a elite do que se construiu como as principais forças políticas do país pós-redemocratização: o PMDB, que no bi-partidarismo permitido pela ditadura, foi o guarda-chuva que abrigou todo tipo de oposição e as correntes e partidos que foram extintos depois do golpe de 1964. O PSDB, que foi um racha do PMDB, quando viram que o ar no PMDB estava irrespirável e isso lá nos tempos de Sarney. O PT, que começou como uma experiência de partido com base em segmentos da sociedade. O PFL (atual DEM), que foi o bloco que rachou da Arena/PDS e permitiu a derrota do Maluf/militares no Colégio Eleitoral, enterrando de vez a ditadura. E até o PP, que vem da linhagem Arena/PDS, que era o partido que apoiava a ditadura, também chamado de partido do “sim, senhor”.

Todos, todos, sem exceção.

Isso significa que tudo o que a nossa sociedade construiu como estrutura e processo político em três décadas de redemocratização, suas lideranças, seus partidos, a representação das opiniões existentes dentro da sociedade, era podre por dentro. A reação à lista não é de surpresa, porque sempre desconfiamos do que havia por trás dos “objetos” embalados pelo marketing político. A reação é de perplexidade. A lista de Janot, mais do que um índex para o sadismo político, é um atestado de óbito, é a demonstração de que falimos enquanto sociedade.

Pior do que a lista de Janot é imaginar o que vem depois dela. A falência dos partidos, lideranças e das elites políticas formadas nas três décadas pós-redemocratização abre as portas para o discurso totalitário, para os fascistas que babam de ódio e que já começam a mostrar as garras.

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