Estudantes discutem “pixo” na UEL

O perfil Ocupa rádio UEL FM divulgou ontem um texto discutindo a questão do “pixo” na universidade, que foi objeto de um ato de estudantes contrários à greve estudantil, na semana passada. No texto, em que os estudantes fazem um resgate histórico do uso de pichação e de escrita em paredes. Segundo os estudantes, se considerar “o pixo enquanto expressão artística, política e social, entende-se que ele é protegido pelo direito à liberdade de expressão”. Leia abaixo a íntegra do texto.

 

TEM PIXO NA UEL

Pixação é crime previsto em lei. Mas se ater a isso é ignorar um fato fundamental: a lei é feita para preservar os grupos privilegiados de uma sociedade.

Registros de pixação de cunho político são encontrados desde Pompeia, preservados pela erupção do vulcão Vesúvio. Isso em 79 a.C. Nos primórdios do Cristianismo, o Império Romano proibiu qualquer forma de culto por parte dos seguidores da religião. Os cristãos expressavam-se por meio de símbolos em catacumbas, à margem da lei, conhecidos hoje como Arte Paleocristã. Na Idade Média, padres “pixavam” muros para criticar a Igreja. Já na Modernidade, na Revolta Estudantil de 1968, em Paris, o pixo foi meio de expressão e garantidor de voz. O muro de Berlim, derrubado em 1989, ostentava inscritos coloridos.

No Brasil, a pixação dissiminou-se nos anos 60, como forma de denúncia à Ditadura Militar, sem preocupação estética. De lá, veio a pixação poética, com frases reflexivas, e a tag. A tag nada mais é que a assinatura do artista. A preocupação com a letra é a principal característica. O alfabeto do pixo tem influências tipográficas em capas de CD de rock e em antigos alfabetos, principalmente o anglo-saxão, utilizado na Inglaterra entre os séculos VI e X. Todos esses tipos são encontrados pelos corredores, paredes e banheiros da UEL.

Reduzir o pixo a crime é simplesmente ignorar o seu valor simbólico, artístico e político. A criminalização no ornamento jurídico brasileiro não deveria ser usada como forma de coibir a arte que dá voz. Vale lembrar que o Apartheid e o Holocausto, por exemplo, eram sustentados por políticas governamentais. No Brasil, a Ditadura Militar defendia censuras e torturas com Atos Institucionais. Até mesmo o Divórcio só foi legalizado no país em 1977.

Considerando o pixo enquanto expressão artística, política e social, entende-se que ele é protegido pelo direito à liberdade de expressão. Essa onda de higienização da Universidade é uma forma de calar as vozes dos oprimidos, que – por meio da arte – tentam escancarar as injustiças observadas diariamente. A homogeneização de lugares e alisamento de superfícies atende aos interesses de alguém. De alguém que se sente representado por paredes brancas e por pessoas caladas.

Vivemos em uma sociedade em que uma parede poluída por anúncios é aceita, e uma parede com inscritos poéticos, políticos, artísticos é criminalizada.

Pixo é afirmação, é representação, é denúncia, é construção de novos mapas territoriais. Com a higienização da Universidade, decidimos registrar nossas paredes. Ficam algumas perguntas: o que é arte? Para quem é essa arte? O que é poluição visual? Como limpar uma “pichação”?

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