Crise política só acaba com o fim da Lava Jato

Foto: Juliana Pereira

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Passado o episódio da cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff (PT), duas questões tomaram conta do noticiário político: a primeira é quando a crise econômica começa a arrefecer; a segunda, quando a crise política começa a ser resolvida. Para os mais apressados, a crise política se resolveu com o impeachment de Dilma e a posse definitiva de Michel Temer (PMDB). E com Temer no governo e a governabilidade restabelecida – à custa de muita troca de favores no Congresso, o que já não vinha mais funcionando com o PT, desde o momento em que os setores fisiológicos que sustentam qualquer governo vislumbraram outra perspectiva de poder –, o país volta à normalidade institucional. Por consequência disso, acaba a paralisia imposta a Dilma desde o começo do ano passado pelo Congresso e os projetos que possam enfrentar a crise começam a ser aprovados.

Do ponto de vista da economia, de fato as medidas devem começar a ser tomadas, ainda que com um custo social altíssimo, já que o PIB apoia a agenda antipopular e sem-voto de Temer. Flexibilizar direitos trabalhistas para botar os “patos” para trabalhar de graça (a Fiesp nunca quis pagar os patos, sempre defendeu que eles trabalhassem sem receber), “congelar” os recursos da saúde e da educação, entre outros.

Do ponto de vista político, só existe um jeito de a crise acabar: uma grande pizza na Lava Jato. Isso já tinha ficado claro nas inconfidências gravadas por Sérgio Machado, logo que Temer assumiu interinamente: o PT tinha perdido o controle da situação e era preciso tirar Dilma para que o acordão, salvando todos os demais partidos do avanço das investigações.

Os sinais de combate à Lava Jato começaram a aparecer no “congelamento” dos acordos de delação premiada com a OAS e a Odebrecht. O “congelamento” apareceu na agenda depois do vazamento da informação de que representantes das duas construtoras incluiriam tucanos como José Serra, no caso da OAS, além do relato de que Temer teria pedido R$ 10 milhões em caixa 2 para a Odebrecht. Ironicamente, a delação das duas construtoras se viu ameaçada depois de ocorrido um fato corriqueiro desde o início da Lava Jato: o vazamento. Até aqui ninguém teve acordos de delação premiada ameaçados por vazamentos.

Outro indício de avanço do acordão sobre a Lava Jato aparece nas falas de Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que fez duras críticas às medidas contra a corrupção, que procuradores e o juiz Sérgio Moro conseguiram capitalizar politicamente e transformar num projeto de lei. Mendes até acertou na forma, ao criticar, por exemplo, algumas medidas, entre elas uma que cria uma espécie de “presunção de boa fé”, aceitando provas ilegais em processos, desde que obtidas de “boa fé” – o que ninguém sabe exatamente o que significaria. Mas o tom usado foi de ameaça à Lava Jato. O sistema político já deu sinal de que tem jogo: Rodrigo Maia (DEMM/RJ), relator do projeto apresentado pelos procuradores e presidente da Câmara, sinalizou: ele disse, em matéria publicada pela Agência Brasil, que as críticas de Mendes precisam ser ouvidas com atenção. Ou seja: o acordão está em curso.

A outra forma de resolver a crise política é avançar na Lava Jato, dessa vez sem seletividade, investigando indiscriminadamente todos os partidos, algo que é improvável. Para que isso aconteça, é preciso vontade política de procuradores e do próprio Moro, o que aparentemente não existe, além de lacunas no sistema político, que já começam a ser fechadas com o “acordão” em curso. A Lava Jato já perdeu força no noticiário, isso depois de mais de um ano e meio de estrelato. Agora a agenda é o “pra frente, Brasil”, “a economia vai se recuperar”.

E as ruas? Por um lado, movimentos sociais estão realizando manifestações colocando em xeque a legitimidade de Temer e da sua agenda. A volta dos movimentos sociais é um fato importante, mas é preciso tomar cuidado com as pedradas no pé (incêndio do Reichstag?) que ajudarão Temer a isolar e criminalizar esses movimentos. Já as panelas que bateram contra os corruptos do PT não baterão contra os corruptos dos outros partidos. A essa altura elas devem estar ocupadas com a pizza.

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