Pedrada no pé

Se em Londrina as manifestações contra o presidente Michel Temer (PMDB) foram marcados por tranquilidade e sem incidentes, em Curitiba o ato contra o peemedebista terminou com injustificáveis ataques à sede da Gazeta do Povo – que teve um vidro quebrado por uma pedra –, um carro da RPC e equipamentos públicos, que foram pichados. A pedrada que quebrou a janela da sede do jornal atingiu, na verdade, o pé de quem o atirou. Ainda que se discorde da linha editorial de veículos de comunicação, atacar fisicamente em nada resolve situação alguma. Pelo contrário, enfraquece a legitimidade de uma manifestação, cujo objetivo é atingir um governo disposto a defender uma agenda que avança sobre direitos sociais.

Se há enfrentamento a ser feito – e ele é legítimo –, isso precisa acontecer no plano das ideias e não no embate físico. O descontentamento com linhas editoriais de veículos de comunicação pode e deve ser combatido com palavras e argumentos, no ilimitado espaço virtual e não com pedras. A internet possibilita a ampliação do espaço público e pode funcionar como um contraponto poderoso, quando bem usada.

Pichar e depredar equipamentos públicos e prédios privados também não resolve problema algum. No caso dos equipamentos públicos, a reparação dos danos é feita com dinheiro que sai do bolso do contribuinte.Se há alguém que se beneficia desse tipo de estratégia, esse é o próprio Temer, a quem interessa desmoralizar opositores, ainda que moral seja algo que o agora ex-interino, inelegível por decisão da Justiça Eleitoral e citado em delações da Lava Jato, não tem para ostentar. A propósito, lembrar as ligações perigosas de Temer e seu “currículo” é muito mais doloroso que qualquer pedrada.

Criminalizar movimentos sociais ou a própria pobreza é algo que interessa – e muito – a um governo de caráter conservador e cuja legitimidade é questionada. Usar pedras físicas em vez de palavras é dar argumento para que um presidente cercado por suspeitas e com legitimidade precária se fortaleça. Para efeito de comparação, os aviões que atingiram as torres gêmeas de Nova Iorque, em 2001, mais beneficiaram do que prejudicaram George W. Bush, cuja legitimidade era questionada devido a suspeitas de fraudes nas eleições presidenciais dos EUA, no ano anterior. Fortaleceram um presidente fraco.

Para manter a sua legitimidade e fortalecer a luta a que se propõem, os movimentos sociais precisam isolar e se afastar dos atiradores de pedras e pichadores, cuja ação está mais para incêndio do Reichstag do que para fortalecimento das agendas sociais.

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