No Brasil pós-impeachment, tudo muda para ficar do mesmo jeito

O desfecho do processo de impeachment, previsto para esta terça-feira, é previsível: está praticamente definido que o mandato da presidente Dilma Rousseff (PT) será abreviado e que o ainda interino Michel Temer (PMDB) assume o mandato, mesmo que as pedaladas retóricas não tenham configurado as pedaladas fiscais efetivamente como crime de responsabilidade. A levar a sério o entendimento de pedaladas fiscais como crime de responsabilidade, Temer, diversos governadores e até prefeitos devem ter o mesmo destino, sob pena de estarmos diante de um tribunal de exceção. Não terão.

O Brasil que vai emergir desse processo de impeachment é farsesco como farsesca é a tentativa de Temer de se colocar como “estadista” (nunca será). Condenado pela Justiça Eleitoral, inelegível e citado por delatores da Lava Jato, Temer vai “conduzir” o Brasil a dois anos e quatro meses de incertezas e de um governo fraco e refém de um Congresso fisiológico e apequenado do ponto de vista político. Aqui cabem parêntesis: Dilma, se reconduzida, não teria um roteiro diferente, faria um governo fraco, sem governabilidade e refém do mesmo Congresso.

Existem ainda dois grandes passos para a confirmação da farsa: o primeiro passo é configuração da pizza na Lava Jato, o que já começou a ser providenciado tanto pelo Ministério Público Federal, que suspendeu o encaminhamento dos acordos de delação premiada com as construtoras OAS ou Odebrecht, assim que surgiram nomes como os do próprio Temer, do ministro José Serra (PSDB) e do senador Aécio Neves (PSDB). Outro forte indício do encaminhamento da pizza ao forno foram os ataques de ministro Gilmar Mendes contra as “medidas contra a corrupção”, criadas pela “República de Curitiba”. Ainda que Mendes tenha razão ao criticar a “presunção de boa fé” (que provas ilícitas sejam usadas desde que tenham sido colhidas de “boa fé” – como assim?), a forma como fez a crítica (e só depois de o desfecho do impeachment ser previsível) significa que o enquadramento da República de Curitiba está a caminho. A questão é que assim como combater a corrupção cometida por petistas, há que se fazer o mesmo com os corruptos de todos os outros partidos. Não será feito.

O outro grande passo para a confirmação da farsa é que Temer, embora também seja o destinatário dos 54 milhões de votos que foram dados a Dilma, se prepara para implantar uma agenda que não é a que foi aprovada nas urnas. Mudanças em legislação trabalhista, reforma na previdência e outras maldades que o usuário (e usurário) da mesóclise prestes a se instalar no Palácio do Planalto prepara, principalmente contra o Trabalho, não foi o que moveu esses 54 milhões de votos que Temer tenta (re)aproveitar. Ninguém se elegeria presidente no Brasil com tal agenda.

O que a coalizão PMDB/PSDB está para implantar no Brasil, com uma agenda rejeitada pelas urnas, é um caso curioso – e obviamente cínico – de “democracia” sem povo.

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