A “bombeta” da discórdia e o choque antropológico

Choque antropológico. Talvez essa seja a descrição para o que acontece nesse momento com a única candidatura a prefeito de Londrina oficializada por convenção partidária até esse momento. Trata-se da candidatura do estudante de Psicologia da UEL, Paulo Silva, de 23 anos, que vai concorrer pelo Psol. Negro, franzino e morador da periferia, Silva se veste como morador de periferia pelo menos em um quesito: os bonés de aba reta. Aliás, bombeta, como diria Mano Brown, líder do grupo de rap Racionais MC’S, que do Capão Redondo, na capital paulista, fala para todo o Brasil.

Bombeta é uma indumentária atribuída aos “manos”, uma denominação que muitas vezes demonstra o preconceito de quem usa o “carimbo”, mas a julgar pelo próprio Mano Brown, foi incorporada como forma de reforçar a identidade da periferia.

Voltando ao choque antropológico, uma das “bombetas” de Silva virou polêmica nacional. O blog conservador O Antagonista destacou uma foto de Silva, sem camiseta e com um boné com uma folha que representa a maconha. A polêmica em torno da aparência do candidato do Psol, que já tinha sido alvo de “haters” de Londrina no Facebook, ganha mais um capítulo com um tema que é discutido com muita paixão e pouquíssima razão. Muitos dos indignados com o “boné da maconha” não se incomodam na mesma proporção, por exemplo, com o “helicoca”, o helicóptero da família do senador mineiro Zezé Perrela que foi apreendido com meia tonelada de cocaína.

A questão da aparência esconde a dificuldade do “mundo oficial”, que é o mundo da “política”, daquele tipo de política que tem sido acusada em todo o mundo de não representar as ruas. É esse mundo oficial que faz com que muita gente enxergue quem e como deveriam ser os “políticos” e que indumentária eles deveriam usar. O mundo oficial que se alimenta e se serve da sociedade, principalmente da periferia, que é procurada durante as eleições e esquecida nos outros três anos e nove meses.

Para o mundo oficial a periferia existe para ficar longe e fora do alcance da visão. E aparecer no noticiário policial. É esse raciocínio que explica o choque de alguns com a “ousadia” de um “mano” de boné de aba reta querer primeiro existir e depois aparecer como um ator político, que quer exercer o direito de falar e ser ouvido. Os ataques à aparência tentam esconder o argumento central que é o de não aceitar o direito do candidato de existir. Ou então, se quiser existir, ele precisa deixar de ser quem é. A começar pela aparência. É um argumento totalitário: suprimir o outro, não admitir a sua existência.

A candidatura do Psol tem algumas fragilidades de ordem política. E é no campo da política, das ideias que ela precisa ser discutida. As chances essa candidatura decolar para o grande público (o senso comum) são reduzidas, principalmente se o candidato se recusar a aderir o padrão – inclusive estético – que os detratores cobram dele. Mas não há dúvida de que é uma candidatura que tem o direito de existir, falar e ser ouvida. Assim como todas as outras candidaturas.

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