A crise do Jornalismo e a nova fase do Baixo Clero

A primeira versão do Baixo Clero, com o fundo azul marinho e as letras em branco

A primeira versão do Baixo Clero, com o fundo azul marinho e as letras em branco

O Baixo Clero nasceu em setembro de 2008 como resposta a duas necessidades. A do repórter e a do professor de Jornalismo. O repórter pensava em um meio para divulgar as informações antes do deadline do jornal impresso (o horário de fechamento da edição). Até a manhã seguinte as notícias estariam velhas. O professor de Jornalismo entrara em contato há alguns anos com o debate sobre a crise do jornal impresso.

Uma das funções a que se propunha o Baixo Clero foi cumprida: levar informações à sociedade, estabelecendo um espaço público para a discussão de questões comuns. Isso está consolidado. O Baixo Clero tornou-se um blog relevante par Londrina e durante a Operação Publicano, do Gaeco, ganhou visibilidade estadual.

A segunda questão ainda está em aberto. Ainda que caiba uma discussão sobre problemas editoriais dentro do jornalismo para conseguir diagnosticar a crise dos jornais, há uma questão particularmente incômoda: o modelo de negócios que prevaleceu durante o século XX se tornou insustentável no século XXI. Diagnosticar a crise é preciso.

A crise

Como lembra o professor e pesquisador Robert G. Picard, da Universidade de Oxford, “os fundamentos da indústria [jornalística] estão a ser abalados por desafios que afetam diretamente o próprio conceito das organizações noticiosas”. No livro “Criação de valor e o futuro das organizações jornalísticas: por que motivo e como o jornalismo deve mudar para se manter relevante no século XXI”, lançado em Portugal em 2013, ele diz que as mudanças em curso afetam essa formatação que se manteve estável ao longo de 150 anos, práticas jornalísticas existentes há 100 anos, normas profissionais criadas há 75 anos e o modelo de negócio considerado bem sucedido ao longo de 50 anos.

Na mesma linha e também em 2013, foi publicado no Brasil, na Revista de Jornalismo da ESPM, o dossiê “Jornalismo pós-industrial – adaptação aos novos tempos”, produzido no Tow Center for Digital Journalism da Colúmbia School e assinado por  C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky. O dossiê mostra que a internet comercial começou a romper, já na década de 1990, com a publicidade tradicional, no formato com o qual ela obteve grande sucesso, ao longo do Século XX. Segundo os autores isso acontece porque a internet acaba com a “integração vertical de conteúdo”, que é o uso da estrutura para a difusão de conteúdos – seja jornalístico, seja publicitário. E acaba também com a “integração horizontal”, que coloca no mesmo pacote diversos conteúdos, das notícias ao entretenimento, o que levava, por exemplo, o leitor, mesmo que atraído por um determinado assunto, a ler outros textos impressos naquele jornal ou revista.

Picard vai mais longe: para ele, a crise vivenciada pelas organizações noticiosas não se restringe à concorrência com a internet. Ela também é reflexo da queda do interesse do público por notícias. O professor afirma que “o consumo de notícias nos EUA hoje está no seu ponto mais baixo em meio século e continua a decrescer a um ritmo significativo. Picard sustenta que os “consumidores de notícias” não migraram em grande número nem para a televisão a cabo, nem para a internet. Tendo o público consumidor de notícias dos EUA como base, ele aponta que a procura por notícias não tem crescido nos últimos anos, o que denota uma redução do interesse por notícias.

A crise afeta todas as mídias, mas o jornal impresso é o primeiro a sofrer com ela.

A logomarca do blog, produzida por estudantes de Publicidade da Faculdade Pitágoras

A logomarca do blog, produzida por estudantes de Publicidade da Faculdade Pitágoras

Qual saída?

Diante desse diagnóstico, é possível dizer que as “placas tectônicas” continuam a se mover e ainda não é possível saber como será feito o jornalismo e como serão as empresas jornalísticas num futuro breve, coisa de 10 ou 15 anos, no máximo. O problema se torna ainda mais grave pelo fato de a imprensa ser considerada um dos pilares das democracias liberais do nosso tempo. Sem uma imprensa livre e independente tanto do governo quanto dos anunciantes, fica difícil imaginar como os cidadãos teriam acesso a informações não contaminadas por interesses políticos ou econômicos para tomar as suas decisões. A queda do interesse por notícias, diagnosticado por Picard é preocupante não só porque está abalando empresas jornalísticas e tirando o emprego de jornalistas. Mas também porque o jornalismo é fundamental para as sociedades contemporâneas.

Qual futuro?

O lançamento do Baixo Clero refletia a preocupação em estar preparado para enfrentar as mudanças na forma de se fazer e trabalhar com jornalismo, que eram iminentes há mais de meia década – o tema é objeto de debate desde os anos 1990. Agora, nessa nova fase chegou o momento de enfrentar a segunda questão: como será o jornalismo do futuro? A resposta ainda está sendo elaborada.

19 comments for “A crise do Jornalismo e a nova fase do Baixo Clero

  1. Márcio Itiyama
    21 de dezembro de 2015 at 22:21

    Boa. Bem vindo, ou bom retorno.

    • baixoclero
      22 de dezembro de 2015 at 08:42

      obrigado. segue o jogo

  2. Mathias r loch
    21 de dezembro de 2015 at 22:30

    Boa Fábio!!!

    • baixoclero
      22 de dezembro de 2015 at 08:42

      obrigado

  3. Iana
    22 de dezembro de 2015 at 06:00

    Gostei! Baixo Clero é um blog muito bom e único.

  4. Lidmar José Araujo
    22 de dezembro de 2015 at 07:55

    Prezado Jornalista,imensa é minha alegria em saber que vc iniciou uma nova fase.Sou um dos inúmeros leitores que o admiram,saiba que vc foi,e é,uma de minhas referencias.Minha primeira carta teve uma participação especial sua com comentários sobre minhas observações na polemica sobre a vinda do Walmart para Londrina ,lembra-se? Pois é, desde então não parei de escrever.Sou-lhe muito grato!!Desejo-lhe tudo de bom,que Deus abençoe vc e sua família e Boas festas!
    P.S. Em algum momento vou meter o bedelho e opinar,até mesmo como contraponto a sua opinião,claro, de uma forma respeitosa, como deve ser um debate entre gentlemans. Talvez um dia possamos “debater” sobre futebol e ai lhe conto sobre o meu primeiro jogo no Maracanã,1982 …Ah..outra coisa aquela bola o Andrade tirou com a cabeça…rsrs

    • baixoclero
      22 de dezembro de 2015 at 08:44

      obrigado, Lidmar. Claro que lembro do caso Walmart e de todo o debate da época. A ideia é essa mesma, debater, dialogar – e isso pressupõe divergir também – sempre dentro das regras. obrigado pela força

  5. Cléber Moletta
    22 de dezembro de 2015 at 08:21

    Entendo, sobre esse momento, que não se trata da “crise do jornalismo”, mas do modelo de negócio. Creio que é momento para os jornalistas pensarem a profissão sem ficar esperando o que o ‘patrão’ vai fazer. É preciso de inovação e empreendedorismo. Claro, não se trata de uma tarefa fácil. O que as empresas farão com suas ‘oficinas’ e suas ‘valiosas marcas’, é um problema que terão de resolver. O jornalismo que podemos fazer agora não precisa, necessariamente, passar pelas escolhas das corporações. Não sei exatamente por onde começar, mas certamente podemos fazer um jornalismo importante e interessante para as pessoas e cidades. Aliás, se o jornalismo que está ai sucumbe, não é problema somente do papel… é, também, porque ele não tem importância para as pessoas…
    Parabéns pelo texto, Fábio.

    • baixoclero
      22 de dezembro de 2015 at 08:46

      Obrigado, Cleber. Além da crise do modelo de negócios, há essa crise que é a seguinte: como manter o jornalismo relevante para as pessoas. Os autores que eu tenho lido falam exatamente disso, de um público que antes lia jornais e que deixou de lê-los. É um público que não migrou para a busca de notícias para a internet. Melhor dizendo, se interessaram. E é essa a tarefa dos jornalistas: tornar as notícias interessantes para as pessoas. Não sei a resposta para essa questão, mas estou buscando;

  6. Hugo Ramirez Filho
    22 de dezembro de 2015 at 10:46

    De repente faltam referências informativas.
    Ufa, tem uma luz no fim do túnel. Os órfãos do JL vão se manter informados no Baixo Clero.
    Ainda há uma dor dor imensa pelo fim do jornal.
    O Fábio poderá amenizar essa dor…

  7. jozimar paes de almeida
    22 de dezembro de 2015 at 11:22

    Que a Força continue com o “Baixo Clero”!

  8. 22 de dezembro de 2015 at 15:22

    Parabéns pelo retorno do Baixo Clero, desejo sucesso e um feliz 2016 para você e a família.
    Como sugestão que tal fazer um financiamento coletivo com as novas possibilidades de contribuição mensal a partir de 5 reais, dai creio que poderão iniciar junto com outros colegas um jornal digital ou coisa do gênero com o Baixo Clero como carro chefe. veja mais aqui…http://www.kickante.com.br/criar-clube-contribuicao-mensal

  9. Teresinha Rosa
    22 de dezembro de 2015 at 19:09

    Continuaremos leitores fiéis!

  10. Marcelino Jr.
    23 de dezembro de 2015 at 11:32

    Sucesso, Fábio, neste seu novo ciclo profissional. Abraços!

  11. Jose Miguel Arias Neto
    24 de dezembro de 2015 at 06:15

    Parabéns Fábio…..ainda bem que vc voltou…temos uma ancoragem competente para o jornalismo em Londrina. Agora temos – a comunidade de leitores – onde comentar, discutir, concordar, discordar e brigar de novo. Um alívio. Estava sentindo falta de um espaço assim. Até dos reaças do JL eu gostava. Podia brigar. kkkkkkk
    parabéns Fábio. Vc é um jornalista digno da nossa maior admiração.

  12. Marcos Mello
    24 de dezembro de 2015 at 11:14

    Ufa!! Graças a Deus você voltou Fábio. Estava me sentindo órfão dos seus textos e notícias de jornalista e não de advogado. Boa sorte na nova empreitada e continue assim: um exemplo de imparcialidade relatando os fatos da maneira como realmente são. Boa sorte!!!

  13. Angelo Valerio Kalocsay
    25 de dezembro de 2015 at 08:05

    Fábio,
    Enquanto existir Baixo Clero, jamais haverão órfãos por notícias.
    Tem que se pensar, num formato de veiculação IMPRESSA (semanal) para o Baixo Clero, abordando temas pontuais e relevantes, nas esferas municipal, estadual, federal e mundial.
    Sucesso sempre!!!

  14. 8 de abril de 2016 at 20:13

    Oi
    A-do-rei o texto.
    Até breve
    Mariana BrasilTuris Cupom de Desconto Netshoes bj.inf.br/netshoes-desconto

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